Lançamento do livro:

Primeira Crônica do Livro
Um Vermelho na Mancha Verde
Athos Ronaldo Miralha da Cunha
A Copa do Brasil encaminhava-se para a reta final dos jogos e movimentava o meio futebolístico. Uma sexta-feira, no final de novembro de 1992, nebulosa e com uma leve brisa fria, Internacional e Palmeiras fariam a primeira partida pelo torneio. A segunda seria na semana seguinte em Porto Alegre e o Beira-Rio como palco do espetáculo.
Naquele novembro, São Paulo ainda fervilhava com o segundo turno das eleições municipais, uma turbulenta disputa polarizada entre Suplicy e Maluf e, logo após, o também tumultuado clássico entre Corinthians e São Paulo, que superlotou o Morumbi, foi centro das atenções dos paulistanos. O jogo estava marcado para às 17 h e cedo da manhã caravanas de corintianos, eufóricos e agitados, subiam a Consolação. Vendo tamanha algazarra, uma pequena hipótese de assistir o jogo foi simplesmente descartada.
Sozinho naquela conturbada metrópole paulista e colorado dos quatro costados, não poderia deixar de prestigiar o encarnado dos pampas. Já que tinha falhado no clássico paulistano, tomei coragem e resolvi me aventurar naquele jogo decisivo. Fui disfarçado com uma camisa verde e um radinho colado no ouvido.
O Palestra Itália, que vi pela primeira vez, não é grande, uma ferradura com arquibancadas numeradas. Comprei uma geral. Duas horas antes eu estava lá e mais alguns gatos pingados esverdeados. Não tardou muito e eu estava cercado de palmeirenses, mais precisamente, os torcedores amáveis, simpáticos e comportados da... Mancha Verde!
Não falei com ninguém, pois a gente diz meia dúzia de palavras e eles já perguntam... É gaúcho? Ainda mais eu que tenho o sotaque agauderiado, lá de Santiago do Boqueirão. Tratei de ficar calado, grudei o rádio no ouvido e dá-lhe Inter.
E a galera palmeirense...
– Se o palmeiras não ganhar o pau vai rolar!
– Dá-lhe, Palestra! Dá-lhe, Palestra! Olê! Olê! Olê!
Ou então...
– Grêêêêêêmioooo... Grêêêêêêmioooo...
– Se nós perdermos esta, vai ser difícil lá no Beira-Rio?
– É. – respondi, balançando a cabeça, disfarçando o jeitão do sul.
Na hora do pênalti o paulistano foi a loucura, fogos de artifícios e comemorações, até uma “ola” eles ensaiaram. O silêncio foi o que se ouviu no seio daquela ferradura quando Fernandes voou como um felino e defendeu.
– Valeu, Fernandes! O Gato Fernandes! – eu festejava, em pensamento, no meio da Mancha Verde, com as feições tristes de um fanático torcedor palmeirense puto da cara.
Após o término do jogo, num canto do estádio, a pequena torcida do Inter fazia a festa pela grande vitória. E nós, “palmeirenses de coração”, xingamos o juiz, os jogadores e a direção e saímos chutando muros e paredes para fora do estádio.
O comentarista da rádio Globo comentava... O Gerson saiu porque estava com cólica, com cólica fez o que fez imaginem se estivesse são. E foi assim aquela noite de 27.11.92 em pleno Parque Antártica. Inter 2 X 0 Palmeiras. Naquele jogo, com dois gols do saudoso centroavante Gérson, que o Internacional arrancou para a conquista daquela Copa do Brasil.
